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sábado, 8 de outubro de 2011

Tratado sobre a minha confusão de faces e assuntos da autoterapia.



Começa a sessão. Eu me sento nada confortável na cama em frente ao meu terapeuta, o Sr. computador e seus assistentes: Word e espelho. Começa. Eu, ele, nós.

Eis que eu tenho três faces, e cada uma tem um nome. Alguns chamam isso de pseudônimos, outros heterônimos e ainda outros, de esquizofrenia. Eu vejo apenas como faces de uma mesma pessoa.

Face um: A menina que nasceu numa quinta-feira de primavera em outubro de 1985 e foi adotada por pais zelosos e se submeteu às regras como somos submetidos a vida, sem escolha. Não pensa, não age, não tem vontade própria, não deseja... Apenas obedece aos pais a quem não sabe se ama, mas sente dever-lhes eterna gratidão. Tem eterna auto-piedade e auto-indulgência e sente culpa por quase tudo: o mundo cão, as favelas, as tristezas alheias... Esta rouba lápis com um coleguinha do primário para ser sentir inclusa, aceita e querida. Mas ao mesmo tempo sente que o mundo lhe deve algo. Mas como obedece e tem necessidade constante de agradar, aceitar e acomodar-se, nunca cobra o que acha devido. Ela sente culpa em sentir raiva, ódio e reprime todo sentimento desse nível.

Face dois: A garota que nasceu com 12 anos numa das muitas noites de choro e lua cheia e incubou-se até completar 16 anos, tudo o que sente é sempre sobre si mesma. Esta fugiu metaforicamente de casa, viveu só nas noites frias, andou por ruas escuras e via tudo com curiosidade e medo. Sonhadora, ela se acha especial de algum modo, pois acredita em sua peculiaridade, chega mesmo a acreditar que tem algo imensamente especial para fazer ao mundo, sente necessidade de doar-se à alguma causa, a um propósito maior que si mesma. Ter arte nos olhos e o pensamento na arte. Não deseja nada concreto, a sua motivação é criar e ver admiração e virtude. Sabe que não pode flutuar no mundo e que pôr os pés no chão será necessário e isso a corrói. Ela se suicidou diversas vezes e outras tantas renasceu, para a vergonha e desespero próprios. Falta de coragem é um dos seus traços.

Face três: A mulher viajante que não tem idade. Curiosa, ela deseja, ela quer, ela tem. Segura, não tem nada que lhe seja demasiado. Suas opiniões são firmes e não crê em nada além do que em si mesma, ela conquista, cativa, apaixona e deixa apaixonar-se, e despreza. Quer o mundo e quer a solidão, quer o céu e quer também o chão. Odeia com tanta força que chega a doer, assim como a excitação pulsante e insatisfeita que sente. Nada sacia sua sede de vida, de desejo, de querer. Ninguém é suficiente para ela e ela não é suficiente para existir só. Ela só quer descobrir e deixar-se ser descoberta. Nada com ela deve passar das primeiras impressões, pois ela sim tem consciência das outras faces, que julga não serem dignas de ninguém além dela mesma no espelho. Envergonha-se de todo o resto que não é ‘ela’ mesma.

Cada uma das faces, como disse, tem um nome. Eu reconheço-me por esses três nomes, mas renego um, exibo outro e o terceiro é icógnito. Há duas noites eu sonhei que ao me apresentar a uma criança e ela tendo-me perguntado qual o meu nome, eu disse ter vários. Apontando para a minha cabeça disse meu nome de batismo, Jamile. Apontando para o meu peito disse meu nome de escolha, Sage. E apontando para meu ventre disse meu nome icógnito. E finalmente apontei para o meu pé, e supressa vi que tinha uma ‘quarta’ pessoa dentro de mim, sem nome. No final esta criança me pergunta como eu gostaria de ser chamada e eu não soube responder. E agora acordada, ainda não sei.

Eu me sentia plena sendo Sage, mas agora pulsa uma outra face que sozinha não se completa. E volta e meia não quero ser nenhuma, ou quero ser uma quarta. Completa, perfeita e capaz. Mas não sei construir isso que julgo perfeito. E não sendo perfeito para mim, não é digno de existir.

Interrompe-se a sessão. Eu aperto nada confortável o “publicar postagem” do meu terapeuta, o Sr. computador e seus assistentes: Word e espelho. Termina. Eu, ele, nós.

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