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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crônica da automedicação, do regime ou da vontade de morrer

Tenho me privado de certos alimentos há alguns dias. Um tipo de regime que a gente faz quando uma doença ataca. Certamente sei que deveria ter me poupado antes do mal ter se estabelecido, mas fato é que agora a doença existe. Já havia apresentado pré-disposição a ela desde o pré-natal, pois fui de uma natalidade não desejada.


Sou portadora de angústia, dor ‘consciêncial’, autocrítica, culpa e tristeza crônicas e sofro ataques constantes de dores na alma e sentimentos de “perda de rumo”, coração saindo pela boca, abandono, falsa segurança e outros sintomas nada agradáveis. Sem consultar um médico, me automediquei com o ‘Foda-se 1000mg’ 24 vezes ao dia, ou seja, de hora em hora. Tomei por 15 dias e os efeitos colaterais foram avassaladores e de enlouquecer, tais como: descontos no salário, atraso no pagamento de contas, mais angústias, lágrimas seguidas de soluços, cobranças dos familiares e amigos e vontade de morrer. Segundo a bula o efeito deveria ser tranquilidade e satisfação, com leves ‘caras de amarrar jegues’ dos mais chegados... Mas se você soubesse como automedicar-se é ruim... Não repito esta dose, nunca mais.

Como minha automedicação não teve efeito fui obrigada pelos que observavam meu estado, mesmo sob protestos, a procurar um médico, desses que a gente evita até pensar ser Napoleão Bonaparte. E eu não estava pensando ser nenhum imperador conquistador do século XVII ou XVIII, então não vi sentido e senti um constrangimento indescritível. Há sintomas que mesmo sendo explicadas mil vezes, são tão subjetivos, que ninguém é capaz de compreender. O constrangimento é desses.

No dialogo com o médico expliquei os meus sintomas, mas deixei de mencionar minha automedicação. Médicos costumam ser muito ríspidos com quem se automedica, acho que veem arrogância em nossa atitude, e mesmo não sendo o meu caso, um médico não-ofendido pela omissão é melhor que um médico ofendido pelo quer que seja. Tendo me escutado, ele receitou-me algumas doses de consultas e muitas doses de explicações. As consultas eu deveria começar a tomar dentro de uma ou duas semanas, mas as explicações deveriam ser em grandes doses e imediatas. Que horror... só de lembrar o gosto deste remédio ruim... Sinto os refluxos de culpa e ânsias de vomito de vergonha novamente... Na primeira dose tive que explicar o que estava acontecendo em minha vida de merda, na segunda dose tive que enfrentar as reponsabilidades com meu trabalho, na terceira dose mesmo querendo desistir, engoli e tive que explicar aos meus familiares, amigos e colegas de trabalho que isso é passageiro, na quarta dose eu tive que me olhar no espelho e confessar que não quero estar viva para a próxima dose...



Por enquanto são estas doses que eu tomei, mas tenho outras tantas... Quando eu deveria iniciar com o outro medicamento, as doses de consultas, fui acometida pelo medo das reações colaterais e pulei este medicamento. Sei que não é certo, mas como prometi à mim mesma seguir o regime dos alimentos e continuar com as doses altas de explicações sei que suplantarei esta lacuna.

Se você me perguntar se sinto falta dos alimentos, responderei que é claro! Belos dias em que eu podia curtir uma bela porção de música deprê frita, alguns chorinhos lacrimosos assados, e o que falar do isolamento e da solidão contemplativa flambada com whisky 12 horas...!! Olha, posso lhe garantir que dá para viver sem esses alimentos, mas é muito difícil... sempre dá aquela fominha e a vontade de experimentar só umas lasquinhas de dormir o dia inteiro salpicado de esquecimento, o desejo de mordiscar uns pedacinhos inanição até a quase morte (dá até água na boca!), ou do prato francês raríssimo e dificílimo de comprar Mort a la Suicidè, mas este eu já senti o cheiro e vislumbrei, mas nunca comi por que o preço é o olho da cara.

Para mim o pior não é o regime ou as dores da doença e do tratamento, são as fomes de inexistir e de “desculpe por lhe fazer mal” que nunca são saciadas. Por enquanto vou me (in)fartando de humor de autodepreciação insosso e destemperado, e se quiser, pegue seu prato e sirva-se também.



1 Deixe sua sabedoria:

Anônimo disse...

This is so painful. And you could never share it with me. I do hope you are better now, my Sage.

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Liberté, égalité, fraternité!!