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quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A cela



Trancada em minha cela acolchoada, nem me recordava mais como era irritante debater-me: não havia saída. Eu tinha que viver ali até o tempo me alforriar. Mãos atadas, pés descalços, mente perturbada, alma inquieta. Eu melhor definida em resolução sozinha por silêncio numa tela real e cristalizada. Neste tempo de exílio forçado tentei me entreter com os pensamentos frívolos e com as coisas simples, mas cada vez a tolice pertencia ao meu ser. Eu não gosto de tolos, porque tolos são mais trigo no trigueiral; eu gosto dos oásis que são a cura em meio a sangria árida dos desertos. Eu admiro oásis. Desejei ser oásis, mas me senti trigo. Quem nunca vivenciou a balburdia que fervilha num ser inquieto e insatisfeito não sabe o prazer de silenciar por segundos a angustia que devora cada parte de tudo que reprovamos. Neste ponto eu me reprovava quase por inteiro, e o silêncio era tão raro... Nunca estive só, mesmo estando sozinha. Dizem que as pessoas são indulgentes para conquistar e serem aceitas e compassivas para obter benefícios almejados. Não sei se a minha auto-indulgência e compassividade me fizeram aceitar o que nasci e o que serei a vida toda ou se me beneficiei de alguma condicional não requerida, mas eu dormi e acordei no vazio. A cela sumira. Não, o tempo não me alforriou, mas sem cela, sem mãos atadas, com os mesmo pés descalços, mente perturbada e alma inquieta eu estava no vazio, no oco, num externo silêncio amargo e infinito. Talvez eu sentisse alívio, mas o vazio... O vazio preencheu todo espaço do meu ser transformando em nada qualquer tentativa de compreender a minha nova condição. Fora da minha cela, mas não me sinto livre. Eu expandi até além da minha pele, mas ainda sinto estas antigas grades acolchoadas mostrando-me o lugar a que pertenço e onde deveria estar: dentro de mim. Minha cela. Sonhara diversas vezes com a vida do lado de fora, mas constato que tudo que há, ou tudo que sinto são o nada e o vazio. Então me pergunto a todo instante: como hei de regressar? Refiz antigos passos para encontrar aquele lugar onde viver, perturbava, mas fazia sentido, e ainda não vejo nada além de ligeiras pistas. Em alguns pontos focos de luz refletem nas grades de minha cela e sinto algo, talvez ânimo, mas sei que uma vez fora o caminho inverso é muito longo. Em meus últimos passos vi oásis e trigueirais, olhei e senti falta de um espelho que pudesse me mostrar a realidade que desconheço; Nos meus passos, no desalinho dos meus pensamentos, na solidão de fora de minha cela perguntei-me: como fugi de mim?


A cela (by Gloogle Images)

Liberté, égalité, fraternité!!