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domingo, 24 de abril de 2011

Informação

Se eu acordar durante o sono
E reclamar que o sonho parou,
Se eu tentar voltar a dormir
E voltar de onde o sonho Iniciou?

Se tudo der errado
E nada funcionar,
Se tudo der certo
Será que saberei lidar?

Se o futuro nunca acontecer
e o plano não se realizar,
Se o passado nunca ir
E também nunca ficar?

Se não tiver as respostas
pra estas perguntas, 
A quem hei de questionar?

No vaso

A flor que floresce e murcha
Em seu vaso
Diante de uma janela
Olhando paisagens que não conhecerá
Que desconhece a amplitude da terra
Quão triste será ela
Vivendo
Nesse estado conciso?


Magestade

Reverência à ela
que se fez tempestade,
com esses olhos de relâmpago,
e boca de trovão,
que chove um dilúvio e venta um tufão.


Que quer de mim?

Que resposta eu daria
A esta pergunta modesta
Se na ingenuidade tua boca ignora as palavras
Ledo teu engano
Inocente meu plano
Tua tortura a me torturar
Com olhos nervosos
Fazendo caso na questão
Suas intenções se desencontram
Das minhas
Que não querem se explicar
Meus objetivos viram a esquina
Você silencia a gritar
E estás sozinha comigo
Te dando o exemplo, eu não hei de negar
A resposta se apresenta
Mas as palavras faltam
É preciso demonstrar
Com respeito indesejado,
Digo esperançoso,
O quão perto posso chegar?

Maria Callas

Numa tarde de um mês qualquer, sem uma última canção sequer, se enforcou com as cordas vocais que outrora fizeram-na subir às oitavas. 




Ex(posta)

Olha o abrigo caindo
Olha a lágrima saindo
Esta porta aberta
Todos podem entrar
Essa f(l)echa(dura) enferrujada
Fere-me o peito ao invés de me proteger
Nada mais é seguro
O meu lado in(seguro)
Você acaba de conhecer

Olha a arma escondida
Olha a carne ferida
Essa pele, sangrando serena
(Res)guarda-se na arma escondida
Com a rispidez da língua
Corta mais que espada
E nada mais é seguro
O meu lado obscuro
Você acaba de conhecer

Amor vintage

Mal nos conhecemos e já éramos apaixonados antigos. 
Eu com 80 e ela com 78.

Pequena sabedoria

Um pequeno conto que se contava...

“Dois namorados abraçados na cama, ele diz...

- Havia um sábio...
- Mô outra história de sábio? Sempre estas histórias...
- Sim, mas as histórias não falam sobre sábios, falam das lições, posso contar? Você sempre reclama.
- Sim, você pode, sempre pode Mô. E no mais já estou com sono mesmo.
- Poxa! É assim Mô?
- Mô conta logo vai, senão vai perder a graça, que já não têm.
- Então como eu dizia havia um sábio que vivia em um vilarejo pequeno e pouco povoado, eram comum as visitas, mas naqueles dias o sábio estava sobrecarregado. Atendia muitas pessoas e descansava muito pouco. Um dia seu aprendiz o viu com os olhos avermelhados pelo cansaço e apesar do sorriso em seu rosto tinha as marcas das noites não dormidas, ele então decidiu por conta própria dizer que o Sábio não atenderia mais .
- Bom Mô, isso foi bom né?!
- Pode ser Mô, mas a noticia se espalhou e ouve um dia em que o Sábio não recebeu nenhuma visita. Ele foi ficando cada dia mais abatido
- Mas ele estava descansando... Por que isso? 
- Ele dormia muito e pela manhã tinha dificuldade de levantar e quase não tinha animo, durante a tarde sua face ficava triste e não estudava mais como antes. O Aprendiz não entendia o por quê , já que agora ele tinha todo o tempo para descansar e estudar.
- É não faz sentido...
- Para o aprendiz também não fazia... e um dia ele foi conversar com o seu mestre e perguntou: 
“ - Mestre eu o via muito cansado com as visitas, o senhor quase não dormia e agora que não recebe mais niguém o vejo mais abatido do que antes e sem animo... – o mestre o olhou e respondeu.
- Meu querido Aprendiz veja ao seu redor...
- Sim Mestre.
- O que você vê?
- Seus livros.
- Vá lá fora e olhe... – o aprendiz foi, quando voltou o mestre lhe perguntou o que ele havia visto.
- Bom eu não vi nada além da carroça...
- Isso! Nada além de uma carroça e nada além de livros. Eu também sou assim meu filho nada além de uma pessoa normal. Quando sós, somos apenas mais uma pessoa normal...
- Não entendi mestre...
- Quando eu atendia aquelas pessoas faziam-nas acreditar que eu as ajudava, mas na verdade eram elas que me ajudavam...
- Como Mestre? O senhor as aconselhava, ensinava tantas coisas!
- E fazendo isso eu tinha o por quê aprender, agora sem elas eu não passo de um monte de livros cheio de poeira. Conhecimento não é para se guardar.
- Mestre você é um homem muito sábio e eu tenho que lhe pedi perdão.
- Pelo que meu filho, você é sempre tão cauteloso e prestativo.
- Ah! Mestre nem sempre... Foi eu quem dispensou teus visitantes, achando que seria melhor para sua saúde a placidez e o descanso...
- Enganaste-se, porém, com a melhor das intenções. Teu zelo me conferiu o conhecimento que há anos eu vinha buscando.
- Qual mestre?
- O sentido da minha existência. O porquê.
- O por quê? Não compreendo.
- Por que fizestes isso, por que venho a tantos anos estudando, por que estas pessoas vêem até mim, o por que de tudo que sempre foi feito...
- E qual é, mestre? 
- Amor.
- Amor?”
- Mô você fez esta lengalenga toda pra falar que me ama? Aí que fofura! Eu também te amo!
- É Mô... Mas você não deixou eu terminar a estória...
- Ô senhor chatonildo, to aqui te falando que te amo e você reclama?
- É senhora chatonilda. Poxa que mania de interromper. Tagarela!
- O que? Ah... E depois vêm falar de amor, blábláblá, amor, mestre... Sábio. Tagarela eu? E você é um CHATO! Tudo com maiúscula.
- Quer saber? Você é que é!”

... Escutei nas montanhas de prédios quando eu buscava a iluminação. E o sábio que me contava, repetia que era o amor que fazia enchermos os defeitos de amor e o amor de defeitos. E que é na doação que mais recebemos benefícios. Foi aí que descobri o que falar pesa 100, porém ouvir pesa 1000.


TEATRO - Guadalupe serve a janta - por Paulinho Bonfim (do BdE)

TEATRO - Guadalupe serve a janta


Adaptação do conto Guadalupe de autoria da amiga Sage.

Por: Paulinho Bonfim (do BdE) Na hora do café:

- O Adalberto já saiu Guadalupe?
-Sim doná Patriça.
- Meu nome é PA-TRI-CI-A, você entendeu?
- Sim doná Patri... CIA.
- Traga um pedaço do mamão e uma fatia de melão.
- Hum hum... taqui ó.
- Pode colocar aqui mesmo.
- Ma nóis semo muié besta memo né doná Patriça?
- Quê Guadalupe?
- A genti doná Pratiça, é memo besta, agenti é muié besta sabi...
- Eu ouvi o que você disse. Pergunto que ousadia é essa de falar que eu sou besta, sua indolente?
- Ah doná Patriça, descurpa, má é que fico guniada com essa bestage que nóis muie faiz...
- Olha sua estaferma coloque-se no seu lugar... Imagina uma anta como você falando que eu faço besteiras? Explica isso sua palerma.
- Oiá doná Patriça ocê me chama de nome difice de intendê...
- Oh my God! Quanta parvoíce oh pai! Fala logo Guadalupe!
- É cá genti vive brigandu cum homi e despoi perdoa, ocê memo cum seo Adaberto vive nus ranca rabo despois ta tudim perdado. 
- Que isso! Agora você está escutando a minha conversa, atrás das portas, com o Adalberto, Guadalupe?
- Ara ieu num sô muie de orvi trais das porta nã viu? Mai é qui num é cunversa nã, ocêis grita é por dimais, de lá de longi da pré escutá.
- Eu não grito Guadalupe, eu falo alto.
- Hum bem si vê ocê falando arto... Ara o baixo num querô nem iscutá, fico inté surda cuma coisa anssim... Ai ai 
- Quem te deu essa liberdade toda hein sua imprestável? 
- Ara mai num é verdadi ?
- Eu grito muito é?
- Por dimais. Porisso disse que semo besta sabe... A genti brigar anssim despois tamo lá denovo debem.
- Ah! E o que você entende de relacionamentos?
- Ué doná Patriça ieu cum Astorfo num demo certo nunquinha nessa vida, nois briga anssim que nem ocê e seu Adaberto.

Guadalupe


Cenário: uma mesa, cadeiras, fogão, armário e alguns objetos que reforcem o ambiente em horário de café da manhã.
Em cena, dona Patrícia mulher bonita e bem arrumada e a empregada Guadalupe mulher feia e de linguagem interiorana.



Cena l


Patrícia-
O Adalberto já saiu Guadalupe?

Guadalupe –

Sim dona Patriça.

Patrícia-
Meu nome é PA-TRI-CI-A, você entendeu?

Guadalupe –

Sim dona Patri... CIA.

Patrícia-
Traga um pedaço do mamão e uma fatia de melão.

Guadalupe –

Hum hum... Taqui ó.

Patrícia-
Pode colocar aqui mesmo.

Guadalupe afasta-se da mesa, põe as mãos na cintura e diz:

Guadalupe –

Mais nóis sêmo muié besta memo né doná Patriça?

Patrícia-
Quê Guadalupe?...

Guadalupe –
A genti dona Pratiça, é memo besta, agenti é muié besta sabi?...

Patrícia-
Eu ouvi o que você disse. Pergunto que ousadia é essa de falar que eu sou besta, sua indolente?

Guadalupe –

Ah dona Patriça, discurpa, má é que fico guniada com essa bestage que nóis muie faiz...

Patrícia-
Olha sua estaferma coloque-se no seu lugar... Imagina uma anta como você falando que eu faço besteiras? Olha só pra isso! Vai se explicando sua palerma...

Guadalupe –

Aff, dona Patriça, cê mi chama di cada nome dificê di intendê...

Patrícia-
Oh my God! Quanta parvoíce oh Pai! Fala logo Guadalupe!


Guadalupe –
É cá genti vive brigandu cum homi e despoi perdoa, ocê memo cum seo Adaberto vive nus ranca rabo da bixiga, dispois ta tudim perduado.

Patrícia-
Que isso! Agora você está escutando a minha conversa com o Adalberto atrás das portas, Guadalupe?

Guadalupe –
Ara ieu num sô muie de orvi trais das porta nã viu?(Guadalupe demonstra se assustar) Mai é qui num é cunversa nã, ocêis grita é por dimais, de lá de longi da pra iscurtá.

Patrícia-Eu não grito Guadalupe, eu falo até baixo...

Guadalupe –
Hum bem si vê ocê falando baxo... Ara o arto num querô nem iscutá, fico inté surda cuma coisa anssim... Ai ai

Patrícia-Quem te deu essa liberdade toda hem sua imprestável?

Guadalupe –
Ara mai num é verdadi ?

Patrícia-Eu grito muito é?

Guadalupe –
Por dimais. Porisso disse que sêmo besta sabe... A genti brigar anssim dispois tamo lá denovo debem.

Patrícia-Ah! E o que você entende de relacionamentos? (Fala em tom de sarcasmo) Qual sua experiência no assunto?...

Guadalupe –
Ué doná Patriça ieu cum Astorfo num demo certo nunquinha nessa vida, nois briga anssim que nem ocê e seu Adaberto. Uma veiz eu intê puxei a pexera pr’ele credita não?...


Patrícia-Ai como você é engraçada Guadalupe, imagina você e seu pedreiro Astolfo, igual a mim e o Adalberto? Ai mulher enxerida você não se coloca mesmo no seu lugar hem?!

Guadalupe –
É sim dona Patriça, o Astorfo vive briganu cumigo pruque ancha que chifro ele anssim que nem ocê cum seu Adaberto.

Patrícia-Faz me rir! Que dizer que o “As- tor- fo” acha que você têm amante é? Até parece, um estrupício como você com amante? Já foi muito achar quem lhe quisesse imagina arrumar um amante? Comédia...

Guadalupe –
Oiá que eu num sô de jogá fora nã, têm é bastanti de genti por aí que quiria
Namura cumigo ieu é qui num querô.

Patrícia-Ah é?... Nossa você deve ser a “miss” Favela hem Guadalupe? A “miss” Pedreiro né?! E NA PASSARELA GUADALUPE A MAIS BONITA DA OBRA!(Guadalupe desfila) Ha ha ha ha ha!

Guadalupe –
Gradicida, gradicida!

Patrícia-Para com isso, idiota! Eu estou fazendo sarro com você!

Guadalupe –
Ué num tava falandu que sô misse?

Patrícia-Aff... É Guadalupe, é! Agora me fala que história é essa de amante?

Guadalupe –
Entonce queu Astorfo briga cumigo anssim que nem ocê cum o dortô Adaberto, qui cê vive falandu que ele têm amanti e ele vive dizendu que ce só qué o dinherama que ele dá porcê.

Patrícia-Aquele safado!(bate com a mão fechada na mesa) Tenho certeza que ele deve estar com alguma ninfeta, bonita, mais jovem que vive pelo shopping... E ainda quer me negar uma jóia, uma simples jóia? Quantas ele não deve dar para impressionar a ninfeta?

Guadalupe –
O Astorfo fala a mema coisa...

Patrícia-Ah, mas eu juro que descubro quem é essa garota. Como eu vou competir com uma moça e ainda bonita?

Guadalupe –
Ara dona Patriça ocê é muiê bunita tamém ué!

Patrícia-Você acha mesmo, “Guadá”? (Levanta-se e alisa o próprio corpo)

Guadalupe –
Ô se achu!(Diz de forma eufórica) Eita diaxo de muié bunita! (Completa meio sem jeito) É o qui os homi fala quandu ocê passa.

Patrícia-É mesmo? Hum... Pensando bem até que eu podia arranjar um amante bem mais novo e dar o troco!

Guadalupe –
Ai má num é qué memo? Oxê, eli inté que ia ficá di xifre tamém. Ce vê cuma u Pabro fica de zôio no cê?

Patrícia-Pablo? Que Pablo?

Guadalupe –
U rapaiz da pirsina,

Patrícia-Quê, o rapaz de onde? Da piscina? Você está louca Guadalupe? E lá eu sou mulher de trair? E com o “rapaiz” da piscina? Ah! Isso é que dá ficar dando trela para obtusos como você, sua néscia! Nem sabe falar direito!

Guadalupe –
oxi cê que tava falanu...


Patrícia-
Ai! Sai daqui sua boçal, vai fazer teu trabalho! Sai! Sai! Xô! Onde já se viu, eu uma dama... (Guadalupe sai de cena cantarolando)
Hum! Mas sabe que ele não é de se jogar fora...
Patrícia sai de cena logo em seguida

Cena ll

Noite-Mesmo cenário
Adalberto e Guadalupe em cena

Adalberto, um homem bonito vestido com um hobby está sentado à mesa esperando o jantar ser posto.



Guadalupe –
Podi servir a janta Seo Adaberto?

Adalberto –
Claro Guadalupe, obrigado. Onde está a Patrícia?

Guadalupe –
Foi inté a emprersa atrais du sinhô.

Adalberto –
Faz muito tempo?

Guadalupe –
Faiz umas meia hora...

Adalberto –
Então ela demorar pra voltar.

Guadalupe –
Hum hum acho que sim...

Adalberto –
Ah então vem aqui Guadalupezinha, dá-me um beijo, sua safada! (Ele dá um tapinha na bunda dela) Vou jantar você!

Guadalupe –
Ai seo Daberto num me garra anssim não... Ai! Num sô comida naum... Hi hi hi hi hi

Adalberto –
Ah vêm logo safadona antes que chegue aquele Palermo do seu marido pra te buscar...

Adalberto agarra Guadalupe e começa a beijá-la várias vezes. Guadalupe retira do bolso do avental uma revista e a põe na mesa de forma que se possa ler na capa: COMO DEIXAR UM HOMEM APAIXONADO MESMO SENDO FEIA.

Fim da peça

Guadalupe

Na hora do café:

- O Adalberto já saiu Guadalupe?
-Sim doná Patriça.
- Meu nome é PA-TRI-CI-A, você entendeu?
- Sim doná Patri... CIA.
- Traga um pedaço do mamão e uma fatia de melão.
- Hum hum... taqui ó.
- Pode colocar aqui mesmo.
- Ma nóis semo muié besta memo né doná Patriça?
- O que Guadalupe?!
- A genti doná Pratiça, é memo besta, agenti é muié besta sabi...
- Eu ouvi o que você disse. Pergunto que ousadia é essa de falar que eu sou besta, sua insolente?
- Ah doná Patriça, descurpa, má é que fico guniada com essa bestage que nóis muie faiz...
- Olha sua estaferma indolente coloque-se no seu lugar... Imagina uma anta como você falando que eu faço besteiras? Explica isso sua palerma!
- Oiá doná Patriça ocê me chama de nome difice de intendê...
- Dio mio! Quanta parvoíce oh pai! Fala logo Guadalupe!
- É cá genti vive brigandu cum homi e despoi perdoa, ocê memo cum seo Adaberto vive nus ranca rabo despois ta tudim perdado. 
- Que isso! Agora você está escutando atrás das portas, a minha conversa com o Adalberto, Guadalupe?
- Ara ieu num sô muie de orvi trais das porta nã viu? Mai é qui num é cunversa nã, ocêis grita é por dimais, de lá de longi da pré escutá.
- Eu não grito Guadalupe, eu sou de família Italiana e falo alto.
- Hum bem si vê ocê falando arto... Ara o baixo num querô nem iscutá, fico inté surda cuma coisa anssim... Ai ai 
- Quem te deu essa liberdade toda hein sua imprestável? 
- Ara mai num é verdadi ?
- Eu grito muito é?
- Por dimais. Porisso disse que semo besta sabe... A genti brigar anssim despois tamo lá denovo debem.
- Ah! E o que você entende de relacionamentos?
- Ué doná Patriça ieu cum Gerardo num demo certo nunquinha nessa vida, nois briga anssim que nem ocê e seu Adaberto.
-  Ai como você é engraçada Guadalupe, imagina você e seu pedreiro Geraldo, igual à mim e o Adalberto? Ai mulher enxerida você não se coloca mesmo no seu lugar hein?!

- É sim doná Patriça, o Gerardo vive briganu cumigo pruque ancha que chifro ele anssim que nem ocê cum seu Adaberto.
- Faz me rir! Que dizer que o “Ge-rar-do” acha que você têm amante é? Até parece, um estrupício como você com amante? Já foi muito achar quem lhe quisesse imagina arrumar um amante? Comédia...
- Oiá que eu num sô de jogá fora nã, têm é bastanti de genti por aí que quiria Namura cumigo ieu é qui num querô.
- Ah é? Nossa você deve ser a “miss” Favela hein Guadalupe? A “miss” Pedreiro né?! E na passarela Guadalupe, a mais linda da “Obra”! Ha ha ha ha ha!
- Gradicida, gradicida!
- Para com isso, idiota! Eu estou fazendo sarro com você!
- Ué numtava falandu que sô misse?
- Aff... é Guadalupe, é! Agora me fala que história é essa de amante?
- Entonce queu Gerardo briga cumigo anssim que nem ocê cum o doutô Adaberto, qui cê vive falandu que ele têm amanti e ele vive dizendu que ce só qué o dinharama que ele dá porcê.
- Aquele safado! Tenho certeza que ele deve estar com alguma ninfeta, bonita, mais jovem que vive pelo shopping... E ainda quer me negar um jóia, uma simples jóia de presente? Quantas ele não deve dar para impressionar a ninfeta?
- O Gerardo fala a mema coisa sobre os perfume da Avon...
- Ah mas eu juro que descubro quem é essa garota!! Mas, como eu vou competir com uma ninfeta e ainda bonita?
- Ara doná Patriça ocê é muia bunita tamém ué!
- Você acha mesmo, “Guadá”?
- Ô ce achu, eita diaxo de muié bunita, é o qui os homi fala quandu ocê passa.
- É mesmo? Hum... bem que eu podia arrajar um amante bem mais novo e dar o troco!
- Ai má num é qué memo? Ochê, eli inté que ia fircá di xifre tamém. Ce vê cuma u Pabro fica de xoio em ocê?
- Pablo? Que Pablo?
- U rapaiz da pirsina,
- Quê, o rapaz de onde? Da piscina? Você está louca Guadalupe? E lá eu sou mulher de trair? E com o “rapaiz” da piscina? Ah! Isso é que dá ficar dando trela para obtusos como você, sua néscia! Nem sabe falar direito, imagina dar conselhos!
- Axi ce que tava falandu... 
- Ai! Sai daqui sua boçal, vai fazer teu trabalho! Sai! Sai! Xô! Onde já se viu, eu uma dama... Hum! Mas sabe que ele é tão forte... e aquele volum...

No jantar.

- Podi servir seo Adaberto?
- Claro Guadalupe, obrigado. Onde está a Patrícia?
- Foi inté a emprersa atrais de ocê.
- Que horas?
- Faiz umas meia hora...
- Então ela demora para voltar.
- Hum hum acho que sim.
- Ah então vem aqui Guadalupezinha senta no meu colo e dá-me um beijo, sua safada! Meu jantar será você!
- Ai seo Daberto num me garra anssim não... Ai! Num sô comida naum...
- Ah vêm logo safadona antes que chegue aquele palermo do seu marido para te buscar...

O senhor Adalberto jantou ali mesmo, sobre a mesa, a Guadalupe, dizendo para que ela não falasse nada, só gemesse do jeito que ele gostava e deixando cair no chão a revista de psicologia que lia e que falava sobre taras por pessoas feias. Guadalupe se deixou jantar, como sempre fazia, pensando que para algumas coisas ela não precisava mesmo falar muito.


Seda


Quando rasgas estes tecidos
É você quem fica nú
Pois me visto com roupas de outras tramas
Meu tecido, não se faz destas linhas
Que fracas e de pouca qualidade
Não sustentam meu amor


Não teço meus panos
Com esse algodão impuro
Estes são pro sangue
Dos teus pecados


Meu tecido é feito com linha forte
E se por engano me deixei iludir
Já é tempo de consertar
Volto a costura donde errei
E teço nova fazenda
Com a certeza do fio certo


São nos novos pontos que vejo
Que na sua ilusória seda
Mora na verdade um algodão barato
Que pras minhas costuras
São apenas panos de chão.




Liberté, égalité, fraternité!!