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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Lucky

Lucky. Ele me ama e eu o amo. Vivemos juntos e não deu certo... Como isso pode acontecer? Em um mundo maravilhoso – que é onde vivem os apaixonados – isso é irreal e incabível. Mas onde a gente põem os pés no chão - a vida real - as diferenças, defeitos e complicações de uma outra pessoa não são fáceis de lidar e o saco enche.

Foi assim conosco. O casal feliz, sorridente e perfeito um para o outro, transbordou e tornou-se separados. Há quem não acredite nisso mesmo depois de quase 2 anos e ainda comenta da “perfeição” que éramos um para o outro. Concordo. Somos perfeitos um para o outro e por isso mesmo não demos certo. Explico.

Hoje descobri que biologicamente buscamos pessoas com o sistema imunológico oposto ao nosso. Uma espécie de compensação sábia da mais sábia ainda natureza. Posso dizer que em nosso caso não usamos essa sabedoria: encontramos o que de mais ‘igual’ tínhamos, nossos defeitos e qualidades eram anatômicas e se encaixavam perfeitamente no que chamo de conforto sentimental, e o que era diferente, omitimos (de nós mesmo inclusive) e qualquer coisa minimamente diferente era cobrada como uma traição à nossa intimidade perfeita. Sem o diferencial que nos faz provar e superar as altercações de um relacionamento não há evolução, taí a natureza nos ensinando há tempos o que eu só notei agora. E por notar isso já mudei, e agora sou um tantinho mais diferente dele. Ele que também fez suas descobertas, já é também um tanto mais diferente de mim. Meu ser carrega a vitamina A, que nele falta e o dele a C, que tanta falta me faz. E é assim que deve ser.

Hoje não sei se nossas diferenças nos faria um casal novamente, mas é certo que as nossas afinidades e semelhanças o fez o melhor amigo que eu podia querer. Eu tenho sorte de te podido amar o meu melhor amigo, e continuarmos mais amigos do que nunca no final. I'm so lucky.




Se você está amando não tente suprimir os defeitos do outro, não tente iguala-lo à você ou igualar-se à ele. É isso que satura e são as diferenças que o farão ponderar e aprender a viver juntos. Quando seu amor chegar não despreze a bagagem dele, pois num naufrágio pode ser de lá que virá o que os salvarão. Quando acharem que já sabem tudo sobre o outro não vai ser confortável, será frustrante.



sábado, 8 de outubro de 2011

Tratado sobre a minha confusão de faces e assuntos da autoterapia.



Começa a sessão. Eu me sento nada confortável na cama em frente ao meu terapeuta, o Sr. computador e seus assistentes: Word e espelho. Começa. Eu, ele, nós.

Eis que eu tenho três faces, e cada uma tem um nome. Alguns chamam isso de pseudônimos, outros heterônimos e ainda outros, de esquizofrenia. Eu vejo apenas como faces de uma mesma pessoa.

Face um: A menina que nasceu numa quinta-feira de primavera em outubro de 1985 e foi adotada por pais zelosos e se submeteu às regras como somos submetidos a vida, sem escolha. Não pensa, não age, não tem vontade própria, não deseja... Apenas obedece aos pais a quem não sabe se ama, mas sente dever-lhes eterna gratidão. Tem eterna auto-piedade e auto-indulgência e sente culpa por quase tudo: o mundo cão, as favelas, as tristezas alheias... Esta rouba lápis com um coleguinha do primário para ser sentir inclusa, aceita e querida. Mas ao mesmo tempo sente que o mundo lhe deve algo. Mas como obedece e tem necessidade constante de agradar, aceitar e acomodar-se, nunca cobra o que acha devido. Ela sente culpa em sentir raiva, ódio e reprime todo sentimento desse nível.

Face dois: A garota que nasceu com 12 anos numa das muitas noites de choro e lua cheia e incubou-se até completar 16 anos, tudo o que sente é sempre sobre si mesma. Esta fugiu metaforicamente de casa, viveu só nas noites frias, andou por ruas escuras e via tudo com curiosidade e medo. Sonhadora, ela se acha especial de algum modo, pois acredita em sua peculiaridade, chega mesmo a acreditar que tem algo imensamente especial para fazer ao mundo, sente necessidade de doar-se à alguma causa, a um propósito maior que si mesma. Ter arte nos olhos e o pensamento na arte. Não deseja nada concreto, a sua motivação é criar e ver admiração e virtude. Sabe que não pode flutuar no mundo e que pôr os pés no chão será necessário e isso a corrói. Ela se suicidou diversas vezes e outras tantas renasceu, para a vergonha e desespero próprios. Falta de coragem é um dos seus traços.

Face três: A mulher viajante que não tem idade. Curiosa, ela deseja, ela quer, ela tem. Segura, não tem nada que lhe seja demasiado. Suas opiniões são firmes e não crê em nada além do que em si mesma, ela conquista, cativa, apaixona e deixa apaixonar-se, e despreza. Quer o mundo e quer a solidão, quer o céu e quer também o chão. Odeia com tanta força que chega a doer, assim como a excitação pulsante e insatisfeita que sente. Nada sacia sua sede de vida, de desejo, de querer. Ninguém é suficiente para ela e ela não é suficiente para existir só. Ela só quer descobrir e deixar-se ser descoberta. Nada com ela deve passar das primeiras impressões, pois ela sim tem consciência das outras faces, que julga não serem dignas de ninguém além dela mesma no espelho. Envergonha-se de todo o resto que não é ‘ela’ mesma.

Cada uma das faces, como disse, tem um nome. Eu reconheço-me por esses três nomes, mas renego um, exibo outro e o terceiro é icógnito. Há duas noites eu sonhei que ao me apresentar a uma criança e ela tendo-me perguntado qual o meu nome, eu disse ter vários. Apontando para a minha cabeça disse meu nome de batismo, Jamile. Apontando para o meu peito disse meu nome de escolha, Sage. E apontando para meu ventre disse meu nome icógnito. E finalmente apontei para o meu pé, e supressa vi que tinha uma ‘quarta’ pessoa dentro de mim, sem nome. No final esta criança me pergunta como eu gostaria de ser chamada e eu não soube responder. E agora acordada, ainda não sei.

Eu me sentia plena sendo Sage, mas agora pulsa uma outra face que sozinha não se completa. E volta e meia não quero ser nenhuma, ou quero ser uma quarta. Completa, perfeita e capaz. Mas não sei construir isso que julgo perfeito. E não sendo perfeito para mim, não é digno de existir.

Interrompe-se a sessão. Eu aperto nada confortável o “publicar postagem” do meu terapeuta, o Sr. computador e seus assistentes: Word e espelho. Termina. Eu, ele, nós.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Crônica da automedicação, do regime ou da vontade de morrer

Tenho me privado de certos alimentos há alguns dias. Um tipo de regime que a gente faz quando uma doença ataca. Certamente sei que deveria ter me poupado antes do mal ter se estabelecido, mas fato é que agora a doença existe. Já havia apresentado pré-disposição a ela desde o pré-natal, pois fui de uma natalidade não desejada.


Sou portadora de angústia, dor ‘consciêncial’, autocrítica, culpa e tristeza crônicas e sofro ataques constantes de dores na alma e sentimentos de “perda de rumo”, coração saindo pela boca, abandono, falsa segurança e outros sintomas nada agradáveis. Sem consultar um médico, me automediquei com o ‘Foda-se 1000mg’ 24 vezes ao dia, ou seja, de hora em hora. Tomei por 15 dias e os efeitos colaterais foram avassaladores e de enlouquecer, tais como: descontos no salário, atraso no pagamento de contas, mais angústias, lágrimas seguidas de soluços, cobranças dos familiares e amigos e vontade de morrer. Segundo a bula o efeito deveria ser tranquilidade e satisfação, com leves ‘caras de amarrar jegues’ dos mais chegados... Mas se você soubesse como automedicar-se é ruim... Não repito esta dose, nunca mais.

Como minha automedicação não teve efeito fui obrigada pelos que observavam meu estado, mesmo sob protestos, a procurar um médico, desses que a gente evita até pensar ser Napoleão Bonaparte. E eu não estava pensando ser nenhum imperador conquistador do século XVII ou XVIII, então não vi sentido e senti um constrangimento indescritível. Há sintomas que mesmo sendo explicadas mil vezes, são tão subjetivos, que ninguém é capaz de compreender. O constrangimento é desses.

No dialogo com o médico expliquei os meus sintomas, mas deixei de mencionar minha automedicação. Médicos costumam ser muito ríspidos com quem se automedica, acho que veem arrogância em nossa atitude, e mesmo não sendo o meu caso, um médico não-ofendido pela omissão é melhor que um médico ofendido pelo quer que seja. Tendo me escutado, ele receitou-me algumas doses de consultas e muitas doses de explicações. As consultas eu deveria começar a tomar dentro de uma ou duas semanas, mas as explicações deveriam ser em grandes doses e imediatas. Que horror... só de lembrar o gosto deste remédio ruim... Sinto os refluxos de culpa e ânsias de vomito de vergonha novamente... Na primeira dose tive que explicar o que estava acontecendo em minha vida de merda, na segunda dose tive que enfrentar as reponsabilidades com meu trabalho, na terceira dose mesmo querendo desistir, engoli e tive que explicar aos meus familiares, amigos e colegas de trabalho que isso é passageiro, na quarta dose eu tive que me olhar no espelho e confessar que não quero estar viva para a próxima dose...



Por enquanto são estas doses que eu tomei, mas tenho outras tantas... Quando eu deveria iniciar com o outro medicamento, as doses de consultas, fui acometida pelo medo das reações colaterais e pulei este medicamento. Sei que não é certo, mas como prometi à mim mesma seguir o regime dos alimentos e continuar com as doses altas de explicações sei que suplantarei esta lacuna.

Se você me perguntar se sinto falta dos alimentos, responderei que é claro! Belos dias em que eu podia curtir uma bela porção de música deprê frita, alguns chorinhos lacrimosos assados, e o que falar do isolamento e da solidão contemplativa flambada com whisky 12 horas...!! Olha, posso lhe garantir que dá para viver sem esses alimentos, mas é muito difícil... sempre dá aquela fominha e a vontade de experimentar só umas lasquinhas de dormir o dia inteiro salpicado de esquecimento, o desejo de mordiscar uns pedacinhos inanição até a quase morte (dá até água na boca!), ou do prato francês raríssimo e dificílimo de comprar Mort a la Suicidè, mas este eu já senti o cheiro e vislumbrei, mas nunca comi por que o preço é o olho da cara.

Para mim o pior não é o regime ou as dores da doença e do tratamento, são as fomes de inexistir e de “desculpe por lhe fazer mal” que nunca são saciadas. Por enquanto vou me (in)fartando de humor de autodepreciação insosso e destemperado, e se quiser, pegue seu prato e sirva-se também.



quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Apetite

Fui devorada
Por lábios certeiros e dentes afiados
Língua altiva e dedos ligeiros
Falo perfeito
E o encaixe adequado

Fui devorada
E não sobrou o que eu pudesse preservar
Com seu apetite
Até o último suspiro e suor
O devorador me fez gozar

http://olderoticart.tumblr.com/

Outubro


Senti frio, nasci.
Senti dor, meu dente caiu.
Senti mágoa, era a escola do bullying.
Senti saudade, era a mudança.
Senti ciúmes, era o amor.
Senti sono, era 15 minutos de soneca.
Mas tempo tem fome e só come aos bocados,
Eu o servi 15 minutos e ele devorou 15 anos.
Senti ressentimento, era o meu outubro...
Me roubando o alimento do tempo devorador...

Google images

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A cela



Trancada em minha cela acolchoada, nem me recordava mais como era irritante debater-me: não havia saída. Eu tinha que viver ali até o tempo me alforriar. Mãos atadas, pés descalços, mente perturbada, alma inquieta. Eu melhor definida em resolução sozinha por silêncio numa tela real e cristalizada. Neste tempo de exílio forçado tentei me entreter com os pensamentos frívolos e com as coisas simples, mas cada vez a tolice pertencia ao meu ser. Eu não gosto de tolos, porque tolos são mais trigo no trigueiral; eu gosto dos oásis que são a cura em meio a sangria árida dos desertos. Eu admiro oásis. Desejei ser oásis, mas me senti trigo. Quem nunca vivenciou a balburdia que fervilha num ser inquieto e insatisfeito não sabe o prazer de silenciar por segundos a angustia que devora cada parte de tudo que reprovamos. Neste ponto eu me reprovava quase por inteiro, e o silêncio era tão raro... Nunca estive só, mesmo estando sozinha. Dizem que as pessoas são indulgentes para conquistar e serem aceitas e compassivas para obter benefícios almejados. Não sei se a minha auto-indulgência e compassividade me fizeram aceitar o que nasci e o que serei a vida toda ou se me beneficiei de alguma condicional não requerida, mas eu dormi e acordei no vazio. A cela sumira. Não, o tempo não me alforriou, mas sem cela, sem mãos atadas, com os mesmo pés descalços, mente perturbada e alma inquieta eu estava no vazio, no oco, num externo silêncio amargo e infinito. Talvez eu sentisse alívio, mas o vazio... O vazio preencheu todo espaço do meu ser transformando em nada qualquer tentativa de compreender a minha nova condição. Fora da minha cela, mas não me sinto livre. Eu expandi até além da minha pele, mas ainda sinto estas antigas grades acolchoadas mostrando-me o lugar a que pertenço e onde deveria estar: dentro de mim. Minha cela. Sonhara diversas vezes com a vida do lado de fora, mas constato que tudo que há, ou tudo que sinto são o nada e o vazio. Então me pergunto a todo instante: como hei de regressar? Refiz antigos passos para encontrar aquele lugar onde viver, perturbava, mas fazia sentido, e ainda não vejo nada além de ligeiras pistas. Em alguns pontos focos de luz refletem nas grades de minha cela e sinto algo, talvez ânimo, mas sei que uma vez fora o caminho inverso é muito longo. Em meus últimos passos vi oásis e trigueirais, olhei e senti falta de um espelho que pudesse me mostrar a realidade que desconheço; Nos meus passos, no desalinho dos meus pensamentos, na solidão de fora de minha cela perguntei-me: como fugi de mim?


A cela (by Gloogle Images)

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O Lago

Passa vento, passa chuva, a terra se abre generosa para novos caminhos. Mas o Lago teimoso e desconhecedor da força de suas águas fica sempre no mesmo passado lamacento nunca conquistado, tentando superar fracassos e sem nunca tentar alastrar-se em algo novo. Revolve seu fundo turvo à procura de limpidez, transborda nas chuvas, mas sempre se rende nas secas. Não vive o momento presente e nem as perspectivas. Volta-se para trás e chama antigas companheiras, as pedras suas amigas. Mas ele não sabe que até as pedras um dia saem do lugar e prosseguem em seu caminho aproveitando de qualquer deslize para rolar em busca do avante, que se apoderam das chances e teem nelas aliadas na vida. Então ele tem sua fluidez tolhida por não aceitar a sua natureza maleável e fixar-se no curto, no mesquinho, no ralo. Até quando esse Lago, com força espiritual para ser um rio bravio se sujeitará à essa insignificância e fará um caminho novo? Talvez reste somente ele saber que atitudes iguais levam à caminhos e fins iguais...


                                                            Ainda espero ver estas águas fluir em uma linda cachoeira...

domingo, 24 de abril de 2011

Informação

Se eu acordar durante o sono
E reclamar que o sonho parou,
Se eu tentar voltar a dormir
E voltar de onde o sonho Iniciou?

Se tudo der errado
E nada funcionar,
Se tudo der certo
Será que saberei lidar?

Se o futuro nunca acontecer
e o plano não se realizar,
Se o passado nunca ir
E também nunca ficar?

Se não tiver as respostas
pra estas perguntas, 
A quem hei de questionar?

No vaso

A flor que floresce e murcha
Em seu vaso
Diante de uma janela
Olhando paisagens que não conhecerá
Que desconhece a amplitude da terra
Quão triste será ela
Vivendo
Nesse estado conciso?


Magestade

Reverência à ela
que se fez tempestade,
com esses olhos de relâmpago,
e boca de trovão,
que chove um dilúvio e venta um tufão.


Que quer de mim?

Que resposta eu daria
A esta pergunta modesta
Se na ingenuidade tua boca ignora as palavras
Ledo teu engano
Inocente meu plano
Tua tortura a me torturar
Com olhos nervosos
Fazendo caso na questão
Suas intenções se desencontram
Das minhas
Que não querem se explicar
Meus objetivos viram a esquina
Você silencia a gritar
E estás sozinha comigo
Te dando o exemplo, eu não hei de negar
A resposta se apresenta
Mas as palavras faltam
É preciso demonstrar
Com respeito indesejado,
Digo esperançoso,
O quão perto posso chegar?

Maria Callas

Numa tarde de um mês qualquer, sem uma última canção sequer, se enforcou com as cordas vocais que outrora fizeram-na subir às oitavas. 




Ex(posta)

Olha o abrigo caindo
Olha a lágrima saindo
Esta porta aberta
Todos podem entrar
Essa f(l)echa(dura) enferrujada
Fere-me o peito ao invés de me proteger
Nada mais é seguro
O meu lado in(seguro)
Você acaba de conhecer

Olha a arma escondida
Olha a carne ferida
Essa pele, sangrando serena
(Res)guarda-se na arma escondida
Com a rispidez da língua
Corta mais que espada
E nada mais é seguro
O meu lado obscuro
Você acaba de conhecer

Amor vintage

Mal nos conhecemos e já éramos apaixonados antigos. 
Eu com 80 e ela com 78.

Pequena sabedoria

Um pequeno conto que se contava...

“Dois namorados abraçados na cama, ele diz...

- Havia um sábio...
- Mô outra história de sábio? Sempre estas histórias...
- Sim, mas as histórias não falam sobre sábios, falam das lições, posso contar? Você sempre reclama.
- Sim, você pode, sempre pode Mô. E no mais já estou com sono mesmo.
- Poxa! É assim Mô?
- Mô conta logo vai, senão vai perder a graça, que já não têm.
- Então como eu dizia havia um sábio que vivia em um vilarejo pequeno e pouco povoado, eram comum as visitas, mas naqueles dias o sábio estava sobrecarregado. Atendia muitas pessoas e descansava muito pouco. Um dia seu aprendiz o viu com os olhos avermelhados pelo cansaço e apesar do sorriso em seu rosto tinha as marcas das noites não dormidas, ele então decidiu por conta própria dizer que o Sábio não atenderia mais .
- Bom Mô, isso foi bom né?!
- Pode ser Mô, mas a noticia se espalhou e ouve um dia em que o Sábio não recebeu nenhuma visita. Ele foi ficando cada dia mais abatido
- Mas ele estava descansando... Por que isso? 
- Ele dormia muito e pela manhã tinha dificuldade de levantar e quase não tinha animo, durante a tarde sua face ficava triste e não estudava mais como antes. O Aprendiz não entendia o por quê , já que agora ele tinha todo o tempo para descansar e estudar.
- É não faz sentido...
- Para o aprendiz também não fazia... e um dia ele foi conversar com o seu mestre e perguntou: 
“ - Mestre eu o via muito cansado com as visitas, o senhor quase não dormia e agora que não recebe mais niguém o vejo mais abatido do que antes e sem animo... – o mestre o olhou e respondeu.
- Meu querido Aprendiz veja ao seu redor...
- Sim Mestre.
- O que você vê?
- Seus livros.
- Vá lá fora e olhe... – o aprendiz foi, quando voltou o mestre lhe perguntou o que ele havia visto.
- Bom eu não vi nada além da carroça...
- Isso! Nada além de uma carroça e nada além de livros. Eu também sou assim meu filho nada além de uma pessoa normal. Quando sós, somos apenas mais uma pessoa normal...
- Não entendi mestre...
- Quando eu atendia aquelas pessoas faziam-nas acreditar que eu as ajudava, mas na verdade eram elas que me ajudavam...
- Como Mestre? O senhor as aconselhava, ensinava tantas coisas!
- E fazendo isso eu tinha o por quê aprender, agora sem elas eu não passo de um monte de livros cheio de poeira. Conhecimento não é para se guardar.
- Mestre você é um homem muito sábio e eu tenho que lhe pedi perdão.
- Pelo que meu filho, você é sempre tão cauteloso e prestativo.
- Ah! Mestre nem sempre... Foi eu quem dispensou teus visitantes, achando que seria melhor para sua saúde a placidez e o descanso...
- Enganaste-se, porém, com a melhor das intenções. Teu zelo me conferiu o conhecimento que há anos eu vinha buscando.
- Qual mestre?
- O sentido da minha existência. O porquê.
- O por quê? Não compreendo.
- Por que fizestes isso, por que venho a tantos anos estudando, por que estas pessoas vêem até mim, o por que de tudo que sempre foi feito...
- E qual é, mestre? 
- Amor.
- Amor?”
- Mô você fez esta lengalenga toda pra falar que me ama? Aí que fofura! Eu também te amo!
- É Mô... Mas você não deixou eu terminar a estória...
- Ô senhor chatonildo, to aqui te falando que te amo e você reclama?
- É senhora chatonilda. Poxa que mania de interromper. Tagarela!
- O que? Ah... E depois vêm falar de amor, blábláblá, amor, mestre... Sábio. Tagarela eu? E você é um CHATO! Tudo com maiúscula.
- Quer saber? Você é que é!”

... Escutei nas montanhas de prédios quando eu buscava a iluminação. E o sábio que me contava, repetia que era o amor que fazia enchermos os defeitos de amor e o amor de defeitos. E que é na doação que mais recebemos benefícios. Foi aí que descobri o que falar pesa 100, porém ouvir pesa 1000.


TEATRO - Guadalupe serve a janta - por Paulinho Bonfim (do BdE)

TEATRO - Guadalupe serve a janta


Adaptação do conto Guadalupe de autoria da amiga Sage.

Por: Paulinho Bonfim (do BdE) Na hora do café:

- O Adalberto já saiu Guadalupe?
-Sim doná Patriça.
- Meu nome é PA-TRI-CI-A, você entendeu?
- Sim doná Patri... CIA.
- Traga um pedaço do mamão e uma fatia de melão.
- Hum hum... taqui ó.
- Pode colocar aqui mesmo.
- Ma nóis semo muié besta memo né doná Patriça?
- Quê Guadalupe?
- A genti doná Pratiça, é memo besta, agenti é muié besta sabi...
- Eu ouvi o que você disse. Pergunto que ousadia é essa de falar que eu sou besta, sua indolente?
- Ah doná Patriça, descurpa, má é que fico guniada com essa bestage que nóis muie faiz...
- Olha sua estaferma coloque-se no seu lugar... Imagina uma anta como você falando que eu faço besteiras? Explica isso sua palerma.
- Oiá doná Patriça ocê me chama de nome difice de intendê...
- Oh my God! Quanta parvoíce oh pai! Fala logo Guadalupe!
- É cá genti vive brigandu cum homi e despoi perdoa, ocê memo cum seo Adaberto vive nus ranca rabo despois ta tudim perdado. 
- Que isso! Agora você está escutando a minha conversa, atrás das portas, com o Adalberto, Guadalupe?
- Ara ieu num sô muie de orvi trais das porta nã viu? Mai é qui num é cunversa nã, ocêis grita é por dimais, de lá de longi da pré escutá.
- Eu não grito Guadalupe, eu falo alto.
- Hum bem si vê ocê falando arto... Ara o baixo num querô nem iscutá, fico inté surda cuma coisa anssim... Ai ai 
- Quem te deu essa liberdade toda hein sua imprestável? 
- Ara mai num é verdadi ?
- Eu grito muito é?
- Por dimais. Porisso disse que semo besta sabe... A genti brigar anssim despois tamo lá denovo debem.
- Ah! E o que você entende de relacionamentos?
- Ué doná Patriça ieu cum Astorfo num demo certo nunquinha nessa vida, nois briga anssim que nem ocê e seu Adaberto.

Guadalupe


Cenário: uma mesa, cadeiras, fogão, armário e alguns objetos que reforcem o ambiente em horário de café da manhã.
Em cena, dona Patrícia mulher bonita e bem arrumada e a empregada Guadalupe mulher feia e de linguagem interiorana.



Cena l


Patrícia-
O Adalberto já saiu Guadalupe?

Guadalupe –

Sim dona Patriça.

Patrícia-
Meu nome é PA-TRI-CI-A, você entendeu?

Guadalupe –

Sim dona Patri... CIA.

Patrícia-
Traga um pedaço do mamão e uma fatia de melão.

Guadalupe –

Hum hum... Taqui ó.

Patrícia-
Pode colocar aqui mesmo.

Guadalupe afasta-se da mesa, põe as mãos na cintura e diz:

Guadalupe –

Mais nóis sêmo muié besta memo né doná Patriça?

Patrícia-
Quê Guadalupe?...

Guadalupe –
A genti dona Pratiça, é memo besta, agenti é muié besta sabi?...

Patrícia-
Eu ouvi o que você disse. Pergunto que ousadia é essa de falar que eu sou besta, sua indolente?

Guadalupe –

Ah dona Patriça, discurpa, má é que fico guniada com essa bestage que nóis muie faiz...

Patrícia-
Olha sua estaferma coloque-se no seu lugar... Imagina uma anta como você falando que eu faço besteiras? Olha só pra isso! Vai se explicando sua palerma...

Guadalupe –

Aff, dona Patriça, cê mi chama di cada nome dificê di intendê...

Patrícia-
Oh my God! Quanta parvoíce oh Pai! Fala logo Guadalupe!


Guadalupe –
É cá genti vive brigandu cum homi e despoi perdoa, ocê memo cum seo Adaberto vive nus ranca rabo da bixiga, dispois ta tudim perduado.

Patrícia-
Que isso! Agora você está escutando a minha conversa com o Adalberto atrás das portas, Guadalupe?

Guadalupe –
Ara ieu num sô muie de orvi trais das porta nã viu?(Guadalupe demonstra se assustar) Mai é qui num é cunversa nã, ocêis grita é por dimais, de lá de longi da pra iscurtá.

Patrícia-Eu não grito Guadalupe, eu falo até baixo...

Guadalupe –
Hum bem si vê ocê falando baxo... Ara o arto num querô nem iscutá, fico inté surda cuma coisa anssim... Ai ai

Patrícia-Quem te deu essa liberdade toda hem sua imprestável?

Guadalupe –
Ara mai num é verdadi ?

Patrícia-Eu grito muito é?

Guadalupe –
Por dimais. Porisso disse que sêmo besta sabe... A genti brigar anssim dispois tamo lá denovo debem.

Patrícia-Ah! E o que você entende de relacionamentos? (Fala em tom de sarcasmo) Qual sua experiência no assunto?...

Guadalupe –
Ué doná Patriça ieu cum Astorfo num demo certo nunquinha nessa vida, nois briga anssim que nem ocê e seu Adaberto. Uma veiz eu intê puxei a pexera pr’ele credita não?...


Patrícia-Ai como você é engraçada Guadalupe, imagina você e seu pedreiro Astolfo, igual a mim e o Adalberto? Ai mulher enxerida você não se coloca mesmo no seu lugar hem?!

Guadalupe –
É sim dona Patriça, o Astorfo vive briganu cumigo pruque ancha que chifro ele anssim que nem ocê cum seu Adaberto.

Patrícia-Faz me rir! Que dizer que o “As- tor- fo” acha que você têm amante é? Até parece, um estrupício como você com amante? Já foi muito achar quem lhe quisesse imagina arrumar um amante? Comédia...

Guadalupe –
Oiá que eu num sô de jogá fora nã, têm é bastanti de genti por aí que quiria
Namura cumigo ieu é qui num querô.

Patrícia-Ah é?... Nossa você deve ser a “miss” Favela hem Guadalupe? A “miss” Pedreiro né?! E NA PASSARELA GUADALUPE A MAIS BONITA DA OBRA!(Guadalupe desfila) Ha ha ha ha ha!

Guadalupe –
Gradicida, gradicida!

Patrícia-Para com isso, idiota! Eu estou fazendo sarro com você!

Guadalupe –
Ué num tava falandu que sô misse?

Patrícia-Aff... É Guadalupe, é! Agora me fala que história é essa de amante?

Guadalupe –
Entonce queu Astorfo briga cumigo anssim que nem ocê cum o dortô Adaberto, qui cê vive falandu que ele têm amanti e ele vive dizendu que ce só qué o dinherama que ele dá porcê.

Patrícia-Aquele safado!(bate com a mão fechada na mesa) Tenho certeza que ele deve estar com alguma ninfeta, bonita, mais jovem que vive pelo shopping... E ainda quer me negar uma jóia, uma simples jóia? Quantas ele não deve dar para impressionar a ninfeta?

Guadalupe –
O Astorfo fala a mema coisa...

Patrícia-Ah, mas eu juro que descubro quem é essa garota. Como eu vou competir com uma moça e ainda bonita?

Guadalupe –
Ara dona Patriça ocê é muiê bunita tamém ué!

Patrícia-Você acha mesmo, “Guadá”? (Levanta-se e alisa o próprio corpo)

Guadalupe –
Ô se achu!(Diz de forma eufórica) Eita diaxo de muié bunita! (Completa meio sem jeito) É o qui os homi fala quandu ocê passa.

Patrícia-É mesmo? Hum... Pensando bem até que eu podia arranjar um amante bem mais novo e dar o troco!

Guadalupe –
Ai má num é qué memo? Oxê, eli inté que ia ficá di xifre tamém. Ce vê cuma u Pabro fica de zôio no cê?

Patrícia-Pablo? Que Pablo?

Guadalupe –
U rapaiz da pirsina,

Patrícia-Quê, o rapaz de onde? Da piscina? Você está louca Guadalupe? E lá eu sou mulher de trair? E com o “rapaiz” da piscina? Ah! Isso é que dá ficar dando trela para obtusos como você, sua néscia! Nem sabe falar direito!

Guadalupe –
oxi cê que tava falanu...


Patrícia-
Ai! Sai daqui sua boçal, vai fazer teu trabalho! Sai! Sai! Xô! Onde já se viu, eu uma dama... (Guadalupe sai de cena cantarolando)
Hum! Mas sabe que ele não é de se jogar fora...
Patrícia sai de cena logo em seguida

Cena ll

Noite-Mesmo cenário
Adalberto e Guadalupe em cena

Adalberto, um homem bonito vestido com um hobby está sentado à mesa esperando o jantar ser posto.



Guadalupe –
Podi servir a janta Seo Adaberto?

Adalberto –
Claro Guadalupe, obrigado. Onde está a Patrícia?

Guadalupe –
Foi inté a emprersa atrais du sinhô.

Adalberto –
Faz muito tempo?

Guadalupe –
Faiz umas meia hora...

Adalberto –
Então ela demorar pra voltar.

Guadalupe –
Hum hum acho que sim...

Adalberto –
Ah então vem aqui Guadalupezinha, dá-me um beijo, sua safada! (Ele dá um tapinha na bunda dela) Vou jantar você!

Guadalupe –
Ai seo Daberto num me garra anssim não... Ai! Num sô comida naum... Hi hi hi hi hi

Adalberto –
Ah vêm logo safadona antes que chegue aquele Palermo do seu marido pra te buscar...

Adalberto agarra Guadalupe e começa a beijá-la várias vezes. Guadalupe retira do bolso do avental uma revista e a põe na mesa de forma que se possa ler na capa: COMO DEIXAR UM HOMEM APAIXONADO MESMO SENDO FEIA.

Fim da peça

Guadalupe

Na hora do café:

- O Adalberto já saiu Guadalupe?
-Sim doná Patriça.
- Meu nome é PA-TRI-CI-A, você entendeu?
- Sim doná Patri... CIA.
- Traga um pedaço do mamão e uma fatia de melão.
- Hum hum... taqui ó.
- Pode colocar aqui mesmo.
- Ma nóis semo muié besta memo né doná Patriça?
- O que Guadalupe?!
- A genti doná Pratiça, é memo besta, agenti é muié besta sabi...
- Eu ouvi o que você disse. Pergunto que ousadia é essa de falar que eu sou besta, sua insolente?
- Ah doná Patriça, descurpa, má é que fico guniada com essa bestage que nóis muie faiz...
- Olha sua estaferma indolente coloque-se no seu lugar... Imagina uma anta como você falando que eu faço besteiras? Explica isso sua palerma!
- Oiá doná Patriça ocê me chama de nome difice de intendê...
- Dio mio! Quanta parvoíce oh pai! Fala logo Guadalupe!
- É cá genti vive brigandu cum homi e despoi perdoa, ocê memo cum seo Adaberto vive nus ranca rabo despois ta tudim perdado. 
- Que isso! Agora você está escutando atrás das portas, a minha conversa com o Adalberto, Guadalupe?
- Ara ieu num sô muie de orvi trais das porta nã viu? Mai é qui num é cunversa nã, ocêis grita é por dimais, de lá de longi da pré escutá.
- Eu não grito Guadalupe, eu sou de família Italiana e falo alto.
- Hum bem si vê ocê falando arto... Ara o baixo num querô nem iscutá, fico inté surda cuma coisa anssim... Ai ai 
- Quem te deu essa liberdade toda hein sua imprestável? 
- Ara mai num é verdadi ?
- Eu grito muito é?
- Por dimais. Porisso disse que semo besta sabe... A genti brigar anssim despois tamo lá denovo debem.
- Ah! E o que você entende de relacionamentos?
- Ué doná Patriça ieu cum Gerardo num demo certo nunquinha nessa vida, nois briga anssim que nem ocê e seu Adaberto.
-  Ai como você é engraçada Guadalupe, imagina você e seu pedreiro Geraldo, igual à mim e o Adalberto? Ai mulher enxerida você não se coloca mesmo no seu lugar hein?!

- É sim doná Patriça, o Gerardo vive briganu cumigo pruque ancha que chifro ele anssim que nem ocê cum seu Adaberto.
- Faz me rir! Que dizer que o “Ge-rar-do” acha que você têm amante é? Até parece, um estrupício como você com amante? Já foi muito achar quem lhe quisesse imagina arrumar um amante? Comédia...
- Oiá que eu num sô de jogá fora nã, têm é bastanti de genti por aí que quiria Namura cumigo ieu é qui num querô.
- Ah é? Nossa você deve ser a “miss” Favela hein Guadalupe? A “miss” Pedreiro né?! E na passarela Guadalupe, a mais linda da “Obra”! Ha ha ha ha ha!
- Gradicida, gradicida!
- Para com isso, idiota! Eu estou fazendo sarro com você!
- Ué numtava falandu que sô misse?
- Aff... é Guadalupe, é! Agora me fala que história é essa de amante?
- Entonce queu Gerardo briga cumigo anssim que nem ocê cum o doutô Adaberto, qui cê vive falandu que ele têm amanti e ele vive dizendu que ce só qué o dinharama que ele dá porcê.
- Aquele safado! Tenho certeza que ele deve estar com alguma ninfeta, bonita, mais jovem que vive pelo shopping... E ainda quer me negar um jóia, uma simples jóia de presente? Quantas ele não deve dar para impressionar a ninfeta?
- O Gerardo fala a mema coisa sobre os perfume da Avon...
- Ah mas eu juro que descubro quem é essa garota!! Mas, como eu vou competir com uma ninfeta e ainda bonita?
- Ara doná Patriça ocê é muia bunita tamém ué!
- Você acha mesmo, “Guadá”?
- Ô ce achu, eita diaxo de muié bunita, é o qui os homi fala quandu ocê passa.
- É mesmo? Hum... bem que eu podia arrajar um amante bem mais novo e dar o troco!
- Ai má num é qué memo? Ochê, eli inté que ia fircá di xifre tamém. Ce vê cuma u Pabro fica de xoio em ocê?
- Pablo? Que Pablo?
- U rapaiz da pirsina,
- Quê, o rapaz de onde? Da piscina? Você está louca Guadalupe? E lá eu sou mulher de trair? E com o “rapaiz” da piscina? Ah! Isso é que dá ficar dando trela para obtusos como você, sua néscia! Nem sabe falar direito, imagina dar conselhos!
- Axi ce que tava falandu... 
- Ai! Sai daqui sua boçal, vai fazer teu trabalho! Sai! Sai! Xô! Onde já se viu, eu uma dama... Hum! Mas sabe que ele é tão forte... e aquele volum...

No jantar.

- Podi servir seo Adaberto?
- Claro Guadalupe, obrigado. Onde está a Patrícia?
- Foi inté a emprersa atrais de ocê.
- Que horas?
- Faiz umas meia hora...
- Então ela demora para voltar.
- Hum hum acho que sim.
- Ah então vem aqui Guadalupezinha senta no meu colo e dá-me um beijo, sua safada! Meu jantar será você!
- Ai seo Daberto num me garra anssim não... Ai! Num sô comida naum...
- Ah vêm logo safadona antes que chegue aquele palermo do seu marido para te buscar...

O senhor Adalberto jantou ali mesmo, sobre a mesa, a Guadalupe, dizendo para que ela não falasse nada, só gemesse do jeito que ele gostava e deixando cair no chão a revista de psicologia que lia e que falava sobre taras por pessoas feias. Guadalupe se deixou jantar, como sempre fazia, pensando que para algumas coisas ela não precisava mesmo falar muito.


Seda


Quando rasgas estes tecidos
É você quem fica nú
Pois me visto com roupas de outras tramas
Meu tecido, não se faz destas linhas
Que fracas e de pouca qualidade
Não sustentam meu amor


Não teço meus panos
Com esse algodão impuro
Estes são pro sangue
Dos teus pecados


Meu tecido é feito com linha forte
E se por engano me deixei iludir
Já é tempo de consertar
Volto a costura donde errei
E teço nova fazenda
Com a certeza do fio certo


São nos novos pontos que vejo
Que na sua ilusória seda
Mora na verdade um algodão barato
Que pras minhas costuras
São apenas panos de chão.




Liberté, égalité, fraternité!!