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quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Bocejo

Hoje deitei-me bocejando
Pesando as pálpebras
Querendo apenas
Dormir mais um pouco da minha vida.
Sem pressa.
Sem pensar,
Nas coisas que vi acontecer
No meu vizinho
Mil mortes,
Assaltos,
Roubos,
Corrupções,
Violências!
Só queria e só pensava
Na sorte
De aqui nada destas atrocidades acontecerem
Porém eu só cochilei
E fui acordado
Surpreendido
Por uma arma
Que jogava a realidade
Na minha cara de sono
E foi bem assim
Não importa,
Você dorme
E as coisas acordam
E as coisas acordadas
Não se justificam e nem destratam acordos
Seguem e prosseguem
Sem sequer
Deixar que você
Boceje.

Apagogia

Ela me fala um universo diferente. Eu nunca entendo. Bobagens de menina poeta.

“Eu, brasileira, dezessete anos,
Residente em São Paulo
Estava tentando resolver
Um problema de matemática
E eis que me surge uma apagogia
Bem em frente ao meu livro
Uma janela, a janela do meu quarto
E em frente a ela um homem
Sem antropônimo,
Sem sequer um estômago cheio
Era feio
E com a expressão de desespero
Pedia dinheiro...
Ao lado uma jovemAssim como eu
Talvez até mais jovem
Vendia seu corpo por algumas moedas
Que um homem lhe deu
A sua frente um guri e um pivete
O pivete vendia droga e cheirava cola
O Guri... Cheirava coca...
A uns dois metros deles
Havia um bar
E o dono dele com problemas
Com um individuo bêbado que não queria pagar
O dono: - Paga logo cara!
O individuo: - Vem aqui cobrar!
Não sei quem, mas vi alguém atira
rLogo acima, num pequeno morro
O maior alvoroço, a policia estava lá
Tentando derrubar as casas invadidas
Do terreno abandonado
Vi, naquele dia os universos de dentro e fora
De minha janela
Vi a antinomia desses universos
Que são na verdade um só
Vi naquele diaBrasileiros, com suas respectivas idades
Residentes em São Paulo
Tentando resolver seus problemas de matemática.”


Realmente não entendo essa bobagem toda de poema. Vou ao shopping.

Caridade

Eu podia ter terminado antes da última frase.

- Carlos, eu não quero dormi na casa da sua mãe.
- Mas Docinho, eu preciso chegar cedo no trabalho amanhã. Minha promoção depende disso. Dedicação, sabe?!
- Saímos mais cedo de casa, ué!
- Cedo que horas? Às 04h00m?
- Se for preciso sim. Não gosto de dormi lá, a gente chega e logo vêm seus irmãos e seus pais contarem tudo o que aconteceu desde a vida passada até agora... Aquelas conversas chatas, que só você suporta. E depois a gente vai dormi muito tarde e, você ainda me diz que quer ir para chegar mais cedo?
- Você está falando que eles são chatos?
- Não é isso... Ah, mas é uma chatice o blá blá blá deles, isso é!
- Olha eles não são chatos não. Você é que é chata e não consegue ficar um minuto sem reclamar! Aqui é mais próximo do meu trabalho, posso acordar tranqüilamente às 08h00m e ainda chegar cedo, agora...
- Eu?! Agora sou eu quem é chata? Agora o quê? Da nossa casa, que é no fim do mundo, não dá?
- Eu não disse nada, você quem disse.
- Não que morar lá? Fala tá! Não te obriguei a nada, você está ouvindo?! Se você tivesse um carro, talvez, somente talvez não precisássemos sair de madrugada!
- É? E se você não morasse nos cafundós de Judas talvez eu não perdesse tanto tempo da minha vida esperando um ônibus que nunca chega!
- Olha você foi para lá por que quis! E têm mais, se você tivesse um emprego descente, talvez nós pudéssemos pagar um aluguel por aqui. Mas não, você é um...
- Um o quê? Fracassado? Sim! Eu sou mesmo, me casei com você! Você atrapalha minha vida.
- Ah! Eu tive pena de você! Aliás, eu tenho pena ainda. Você é um coitado que ninguém queria! Fiz caridade...
- Caridade? Caridade.

Eu realmente podia ter terminado antes da última frase.

- Carlos, não é para tanto. Só por causa de uma briguinha à toa? Só não quis ir para a casa da sua mãe o que têm demais?
- Caridade.
- Carlos esquece isso. Foi bobagem... Você me ofendeu sabia?
- Caridade...
- Eu perdoei, você podia fazer o mesmo. Eu não sou o problema de sua vida.
- Caridade?
- Pára com isso! Escuta-me.
- Caridade!
- Deixa essas roupas aí! Vamos conversar.
- Cari...
- Se você falar isso de novo eu não sei o que sou capaz de fazer! Urgh!
- Caridade?!...
- Sabe o que é? Vá embora mesmo! Quero ver o que vai ser de você sem mim...

Podia ter novamente calado-me antes da última frase.

- Oi Carlos! Que milagre encontrar você por aqui!
- Oi Paloma. Eu tenho uma reunião aqui no hotel.
- Nossa como você está diferente, bonito!
- Obrigado. Você está bem...
- Obrigada... E como está a vida?
- Está bem.
- E o seu trabalho?
- Fui promovido. Comecei a chegar mais cedo, dediquei-me mais e em pouco tempo pude melhorar os resultados das vendas. Agora eu sou diretor do departamento comercial, e você?
- Eu?! Continuo aqui na recepção... Você mud...
- Sim, eu mudei, estou um “apart” no mesmo bairro da minha mãe.
- Nossa que bacana.
- É. E com você? Como anda a vida?
- A minha vida?! Está bem... Nada demais. E você está namorando?
- Sim.
- Hum... Virou-se sem mim...

- Sim, dediquei meu tempo livre à caridade, ajudando ONG’s fracassadas.

Liberté, égalité, fraternité!!